Antes de mexer em qualquer cursor
Quando abro um ficheiro RAW de retrato, a primeira coisa que faço é não tocar em nada. Olho para a imagem durante alguns segundos, de preferência num ecrã calibrado e com a luz da sala moderada. Procuro perceber o que o disparo já tem de bom: a direção da luz, a expressão, a separação do fundo. Só depois decido o que falta. Esta pausa evita o erro mais comum de quem começa, que é corrigir tudo ao mesmo tempo e acabar com um retrato que já não se parece com a pessoa que esteve no estúdio.
Convém também ter o ficheiro certo à frente. Se fotografou em RAW mais JPEG, trabalhe sempre sobre o RAW, porque guarda a informação de luzes e sombras que o JPEG já comprimiu. Faça uma cópia de trabalho do catálogo ou da pasta, para poder voltar atrás sem receios. E escolha, entre várias imagens da mesma sessão, uma só para tratar primeiro. O que resolver nela serve de ponto de partida para as restantes, e poupa tempo e inconsistências.
- Veja a imagem inteira antes de ajustar
- Trabalhe sempre sobre o RAW, não sobre o JPEG
- Guarde uma cópia intacta do original
Branco e exposição: a base de tudo
O equilíbrio de brancos é o primeiro ajuste, porque condiciona todos os outros. Em estúdio, com flashes de temperatura constante, o mais seguro é ter fotografado um cartão cinzento no início da sessão. Com o conta-gotas sobre esse cartão, a cor fica neutra de imediato. Sem cartão, procure uma zona que deva ser neutra, como um fundo cinzento ou o branco de um olho, e afine até a imagem parecer natural, sem puxar demasiado para o azul nem para o amarelo.
Depois ajuste a exposição global. Num retrato, vale a pena olhar sobretudo para a pele e deixar o resto em segundo plano. Se as luzes da face estiverem a queimar, reduza ligeiramente as altas luzes em vez de baixar a exposição inteira, que deixaria as sombras pesadas. Se o ficheiro foi bem exposto, as correções são pequenas. Um passo de exposição quase nunca é necessário; meio passo costuma bastar para o rosto respirar sem perder a atmosfera que a luz criou.
Tons de pele: onde o tratamento se nota mais
A pele é o que o olhar procura primeiro, por isso é aqui que um excesso se denuncia. Comece por observar se a pele tem uma dominante de cor que não corresponde à pessoa: demasiado laranja, magenta ou esverdeada. Ajuste a temperatura e o tom em pequenos passos e compare com o que se lembra do dia. Se o modelo trazia roupa ou fundo muito coloridos, parte dessa cor reflete-se no rosto, e convém atenuá-la na zona da pele em vez de mexer na imagem inteira.
Use a saturação e a luminância por cor com moderação. Baixar um pouco o laranja e o vermelho uniformiza a pele sem a tornar plástica, desde que não passe de pequenos ajustes. Um truque simples: alterne entre a imagem editada e a original a cada poucos minutos. Se a diferença salta à vista, foi longe de mais. O objetivo é que quem conhece a pessoa a reconheça, e que a pele continue a ter textura, poros e as pequenas marcas que a tornam real.
- Corrija dominantes antes de mexer na saturação
- Alterne com o original para medir o exagero
Contraste e olhos, com mão leve
O contraste dá forma ao rosto, mas em excesso endurece-o. Prefira trabalhar a curva de tons com um ligeiro S, em vez de arrastar o cursor de contraste ao máximo. Se a luz de estúdio já modelou bem as sombras, quase nada é preciso. Se a imagem parece achatada, aprofunde um pouco os pretos e levante as luzes na mesma proporção. Evite a clareza e a textura muito altas em retratos: realçam rugas e poros de forma pouco simpática.
Os olhos merecem atenção própria, mas discreta. Um pequeno aumento de exposição local na íris e no branco do olho dá vida ao olhar, desde que não se vejam bordas. Use um pincel suave, com pouca opacidade, e aplique em duas passagens leves em vez de uma forte. Se o branco do olho ficar demasiado branco, perde credibilidade. Repare também nas veias e nas sombras sob os olhos: atenuar um pouco é cuidado, apagar por completo é transformar a pessoa noutra.
Retoque localizado: o que limpar e o que deixar
Limpe o que é passageiro e deixe o que é permanente. Uma borbulha de dois dias, um fio de cabelo solto, uma poeira no fundo ou um ponto de luz na roupa podem sair. Cicatrizes, sardas, rugas de expressão e sinais fazem parte do rosto e, na maioria dos casos, convém mantê-los. Se tiver dúvida, pergunte à pessoa retratada o que prefere, porque é ela quem tem de se rever na fotografia durante anos.
Para a pele, evite alisamentos automáticos que apagam toda a textura. Se for necessário suavizar manchas, trabalhe em camadas separadas, com baixa opacidade, e confira sempre a imagem ampliada a cem por cento e também reduzida ao tamanho a que vai ser vista. Muitos defeitos que parecem graves a grande ampliação desaparecem no tamanho real. Pare assim que o retrato pareça limpo mas ainda humano. Um tratamento bem-feito é aquele em que ninguém comenta que houve tratamento.
- Retire o passageiro, mantenha o permanente
- Confirme a cem por cento e em tamanho reduzido
- Peça a opinião de quem foi retratado
Exportar e criar um método repetível
Terminado o tratamento, exporte conforme o destino. Para ecrã, um JPEG em sRGB com qualidade alta chega e garante cores consistentes em qualquer dispositivo. Para impressão, confirme o perfil de cor com quem imprime e guarde também uma versão sem compressão excessiva. Mantenha sempre o RAW original e o ficheiro de edição intactos: daqui a um ano pode querer rever o tratamento com outro olhar e outra sensibilidade.
Por fim, transforme o que fez num método. Anote a ordem dos passos, guarde predefinições simples, como um ajuste base de branco e contraste, e aplique-as como ponto de partida, nunca como resultado final. Cada sessão tem a sua luz e cada pessoa a sua pele, portanto a predefinição serve só para ganhar tempo. Com o hábito, ganha rapidez sem perder sensibilidade, e o seu tratamento passa a ter uma coerência discreta que se reconhece de retrato para retrato.
Um bom tratamento de retrato parece quase invisível: o branco está certo, a pele respira, os olhos têm vida e nada chama a atenção para o trabalho feito depois do disparo. Comece pelo essencial, ajuste em pequenos passos, compare com o original e pare cedo. Nestas semanas de luz mais baixa, vale a pena experimentar o método num retrato antigo e perceber quanto do resultado já estava na luz.
