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Câmaras e objetivas

Erros comuns ao escolher câmara e objetiva para retrato

Os enganos mais frequentes na escolha do corpo, da objetiva e das definições para retrato em estúdio, e maneiras simples de os evitar antes de gastar dinheiro.

Marta Figueiredo

6 minutos de leitura

Erros comuns ao escolher câmara e objetiva para retrato

Começar pelo corpo da câmara em vez da objetiva

Quando alguém me pergunta o que deve comprar para fazer retratos em estúdio, a conversa quase sempre começa pela câmara: quantos megapíxeis, que marca, que modelo acabou de sair. É compreensível, porque o corpo é a peça mais anunciada. Mas num estúdio pequeno, com luz controlada, a diferença entre dois corpos de gama semelhante raramente se vê na imagem final.

A objetiva, essa sim, decide o enquadramento, a perspetiva e a forma como o rosto é desenhado. Uma objetiva boa num corpo modesto dá, quase sempre, melhores retratos do que o contrário. Costumo sugerir que se defina primeiro a distância de trabalho e o tipo de retrato pretendido, e só depois se escolha o corpo que melhor aceita essa objetiva.

Há ainda um ponto prático: os corpos mudam a cada poucos anos, as objetivas acompanham-nos durante uma década. Gastar a parte maior do orçamento no vidro é, na minha experiência, o erro que menos custa a corrigir.

Escolher a distância focal sem testar o espaço

Outro engano frequente é decidir a distância focal pelo que se lê, sem medir o estúdio. Uma objetiva de 85 mm é muitas vezes apontada como clássica para retrato, e com razão: comprime ligeiramente os traços e dá uma perspetiva agradável. Só que, numa sala pequena, obriga a recuar tanto que o fotógrafo acaba encostado à parede, a falar com o modelo à distância de um corredor.

Antes de comprar, convém medir o espaço real entre o fundo, o modelo e o lugar onde ficam os pés do fotógrafo. Se o recuo for curto, uma focal de 50 mm ou de 70 mm pode servir melhor, e o retrato de meio corpo ou de corpo inteiro torna-se possível sem acrobacias.

Quem já tem uma zoom pode fazer o teste em casa: fixar a focal, marcar o chão com fita e verificar se o enquadramento desejado cabe. É um exercício de dez minutos que poupa uma compra mal pensada.

  • Meça a distância entre o fundo e o ponto onde fica o fotógrafo
  • Experimente a focal com fita no chão antes de comprar
  • Lembre-se de que o recuo muda com o formato do sensor

Abrir o diafragma ao máximo por defeito

Quem compra uma objetiva luminosa tende a usá-la sempre toda aberta, porque é para isso, pensa-se, que se pagou. O resultado são retratos com um olho nítido e o outro já a desfocar, ou com o nariz em foco e as pestanas perdidas. A profundidade de campo a f/1.8, a meio metro de distância, mede-se em milímetros.

Em estúdio, onde a luz é minha e posso dosear a potência dos flashes, raramente preciso dessa abertura. Fecho para f/4 ou f/5.6 e ganho um rosto com nitidez consistente, sem perder a separação do fundo se este estiver a uma distância razoável.

As aberturas máximas têm o seu lugar, sobretudo com luz contínua fraca ou quando se procura um efeito suave de propósito. Mas deve ser uma escolha consciente, não um hábito. Pergunto-me sempre qual é a parte do rosto que tem de estar nítida e abro apenas o suficiente para isso.

Confiar demasiado no automatismo de foco

Os sistemas modernos de deteção de olhos são muito bons, e mesmo assim falham de maneira previsível: quando o modelo vira a cabeça, quando há cabelo sobre a cara, quando um acessório brilha perto do rosto. Se não percebermos porque falhou, repetimos o erro durante uma sessão inteira.

Gosto de verificar o foco com ampliação logo nas primeiras imagens, e não apenas no fim, quando já não há remédio. Também aprendi a escolher eu o ponto de foco quando a pose é invulgar, em vez de deixar a câmara decidir por mim.

Ficar a olhar para o ecrã traseiro entre cada disparo parece lento, mas é um hábito que se encurta com a prática. Perde-se um minuto no início e evita-se descobrir, na edição, que as quarenta melhores expressões estão todas ligeiramente desfocadas.

Esquecer a velocidade e a sincronização com o flash

Há um erro que aparece muito a quem começa com flashes de estúdio: a faixa escura no topo ou na base da imagem. Quase sempre vem de uma velocidade de obturador acima do limite de sincronização da câmara. A pessoa quer fechar a exposição do fundo e sobe a velocidade sem olhar para esse limite.

A solução é simples. Em estúdio, a luz ambiente costuma ser fraca face aos flashes, por isso a velocidade serve sobretudo para controlar a luz que não vem deles. Fico por uma velocidade segura, ajusto a exposição com a potência dos flashes e o diafragma, e deixo o obturador em paz.

Convém ainda conhecer o tempo de disparo do corpo e da objetiva que se usa. Algumas combinações têm uma ligeira latência que se nota em expressões rápidas, e é melhor descobri-lo com um amigo a posar do que com um cliente à frente.

  • Confirme o limite de sincronização do seu corpo
  • Ajuste a exposição com a potência do flash
  • Teste a latência de disparo antes da sessão

Comprar tudo de uma vez

Por fim, o erro que mais vejo e que mais me custou a mim própria: equipar o estúdio de uma só vez, com a lista toda do que se lê nos fóruns. Compra-se uma objetiva cara, outra intermédia, um segundo corpo, filtros, acessórios, e depois usa-se uma peça só.

Prefiro aconselhar uma abordagem paciente. Escolher uma combinação razoável de corpo e objetiva, fotografar com ela durante uns meses, anotar o que falta de facto, e só então decidir o passo seguinte. As limitações sentidas na prática ensinam mais do que qualquer comparação de especificações.

Quando se compra com uma necessidade concreta, a escolha deixa de ser uma aposta. Sabemos o que queremos da focal, que abertura realmente usamos e que defeito nos incomoda. É assim que o equipamento deixa de ser uma lista de desejos e passa a ser uma ferramenta.

Quase todos estes erros nascem da pressa de ter o melhor material antes de saber o que se quer dele. Meça o espaço, escolha a objetiva pelo retrato que pretende, feche o diafragma quando o rosto o pede e confirme o foco com calma. O resto, o corpo, os acessórios, as comparações, pode esperar uns meses sem prejuízo para o seu trabalho.